61 Cygni
61 Cygni
Fausto Cunha
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Não. Não se lembra de uma noite pior. Está sitiada pela solidão, há em torno dela uma grade de lanças pontiagudas. “Estou ficando velha, tenho de reconhecer que estou ficando velha, este penteado, este vestido já não iludem”. A angústia cresce e ela sabe que a angústia lhe vem logo ao rosto, a lividez se acentua, e as rugas aparecem, como lâminas. Os homens estão frios, passam como sombras distantes. Não sente coragem de aproximar-se, embora saiba que à luz artificial sua miopia se agrava, somente poderá ver os homens se chegar bem perto.
Há noites em que paira no ar uma fome de amor e os homens uivam atrás dele, qualquer mulher é uma caverna secreta onde o amor se refugia – há noites, mas não esta. Há noites em que o homem está só e busca vorazmente um regaço, há noites em que ele precisa vingar-se e humilhar, e há noites em que todos estão felizes, sua ternura frenética é um veneno que destruiria a calma do sono. Essa rua, não, Ruth! E as luzes?
É preciso encontrar alguém que se detenha um momento para discutir, para saber, um conhecido a quem possa dar boa-noite.
Para junto de um grupo que comenta a história da inglesa que recebeu em seu quarto a visita de um habitante de Vênus. Uma das moças vê na coisa apenas uma patuscada; outra argumenta: “Então só podemos acreditar no pior?” Podia ser perfeitamente um habitante de Vênus. Ruth não sabe ao certo o que esse nome significa, Vênus é para ela sobretudo um lugar aonde gostaria de acolher-se, um lugar longe e bom, sem homens e sem hotel. Alguém descreve zombeteiramente a veste maravilhosa do visitante sideral; de novo a outra moça protesta. Diz que não era um homem fantasiado. Isso Ruth lamenta. Viu certa vez um rei oriental coberto de pedrarias e era belo. Ela própria um dia se fantasiara de cigana e as lantejoulas faiscavam como pequenas chamas. Hoje, se recebesse a visita de um homem de Vênus, entregar-se-ia a ele sem medo, iria para onde ele quisesse. (Mesmo que não fosse um homem de Vênus.)
A euforia da imaginação durou apenas um minuto. Atrás daquele nome repentinamente mágico vieram coisas cruas, sem concessões.
Foi-se afastando das ruas mais frequentadas e tomou o caminho da lagoa, à espera de algum retardatário. Sozinhos dentro da noite os homens repartem mais facilmente o seu quinhão de miséria. Caminhou desenganadamente, quase em linha reta, como se alguém a esperasse num ponto fixo. “Mesmo que não fosse um homem de Vênus”, disse com determinação.
Ali estava a lagoa, as margens desertas. Por que viera para tão longe? Talvez “o homem” estivesse perdido na noite, não seria a primeira vez. Agora parava de vez em quando para olhar em redor, com seus olhos fracos. Depois seguia quase correndo, era preciso chegar à esquina, terminar com aquela faixa de calçada vazia. Alguns casais abraçados, os automóveis. Foi então que notou o vulto junto ao poste de iluminação.
Não conseguia vê-lo direito, era uma sombra informe, diluída. A luz descia como um chuveiro e espalhava-se-lhe em torno.
Mal dera os primeiros passos na sua direção, sentiu que o homem (só poderia ser um homem) a espreitava, aguardava que ela se aproximasse. Não fora em vão que vagara tantas noites, conhecera tantos homens. Sabia quando estava sendo observada, às vezes não podia ainda distinguir quem a olhava mas já sentia.
Acercou-se. Estava a poucos metros e o que via era ainda e apenas um grande borrão humano. Sua vista piorava na penumbra. Era um homem corpulento, devia ter uns dois metros de altura. A noite o envolvia, embora tudo estivesse claro em redor.
Começou a sentir frio, um frio glacial, de grandes febres. E uma náusea violenta, provocada por um mau cheiro estranho, mistura de amoníaco e ácido fênico. “É a lagoa”, pensou, “os peixes podres”. Tentou erguer a mão para tapar o nariz e só então percebeu que estava imóvel, a mão petrificara-se.
“Quem é você?”, gritou apavorada, “O QUE É VOCÊ?”
À sua frente, como um sapo gigantesco, mexia-se e borbulhava uma espuma negra e pegajosa. Emitia um ruído como de gordura fervendo, e era fria. A luz do lampião descia até a espuma e sumia em seu corpo – se era um corpo. Ruth sonhara certa vez que se afogava na lama e a sensação que a tomou quando a gosma se abateu sobre ela foi a de quem se afogasse na lama. “Talvez alguém me salve”, disse, e quis gritar por socorro. Abriu a boca e os lábios ficaram abertos, entrando por eles aquela gosma salobra. A gosma foi abrindo caminho pela garganta e pelo esôfago, tomou-lhe o estômago, os intestinos, os rins. Por fora cobria-lhe o corpo, descia-lhe pelas coxas, numa cópula monstruosa. E veio a explosão de dor. Uma dor fulgurante, que se multiplicava em cutiladas profundas, a dor soltara os seus mastins e a matilha crescia cada vez mais. Seu corpo inteiro se transformou em dor. Era como se estivesse sendo dissolvida em ácido, como se cada poro fosse invadido, como se cada tecido e cada célula fossem arrancados e substituídos. Os olhos já tinham deixado de ver aquela massa fluida que aos poucos se transferia para o seu organismo, mas a dor subia sem cessar, uníssona, aglutinante, e não se deteve nem mesmo quando a espuma se infiltrou pelo cérebro, queimando e corroendo.
“Meu Deus! Eles talvez não saibam que sentimos dor, que temos uma vida por dentro, não somos apenas esta matéria!” Foi seu último pensamento. Uma voz que não falava mais para ela, uma voz que estava em sua língua e em seus ouvidos mas vinha de uma distância infinita, respondeu à que deixava de ser: “Sabemos, sim; sabemos TUDO”.
Uma forma semelhante à de Ruth emergiu de sob o lampião e o chão voltou a ficar iluminado. “Ruth” caminhou para dentro da lagoa, a escuridão a cingi-la como uma couraça. Ficou imobilizada sobre a água, sem tocá-la. A seu lado acendeu-se um raio azulado, logo um verde, logo um vermelho, logo um violeta, catorze raios formaram um círculo em torno de “Ruth”, começaram a girar velozmente, giravam e subiam, e de chofre se juntaram no alto em um raio branco, vivíssimo, “Ruth” desapareceu.
(O raio mergulhou no espaço, rumo à planície incandescente onde os Seres de Cristal estão imóveis à espera. Estão imóveis, e têm a forma de uma rosácea.)
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Olá, eu sou Krúlcifer, mas podem me chamar só de Hugo, se quiserem ;3
Meu propósito com este novo blog é trazer autores e autoras nacionais clássicos ou novos, que foram obscurecidos (ou sofreram um apagamento histórico deliberado) pelo tempo, especialmente de ficção científica (da década de 60 a 90 e 2000, mas principalmente da de 60, pois foi quando a fc brasuca mais floresceu graças às edições GRD — Gumercindo Rocha Dorea, para mais informações recomendo os vídeos do professor Alexander Meirelles da Silva, no canal Fantasticursos).
(Enfim... Eu tenho preguiça de fazer fotocópias, dá muito trabalho e é cansativo pra cacete, mas algum dia eu faço e posto no internet archive, só não me apressem porquê eu não gosto de ser apressado :3).


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