Chamavam-me de Monstro

Chamavam-me de Monstro

Fausto Cunha



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Se algum dia eu voltar a Ghrh, falarei deste lugar maravilhoso que é o planeta Terra. Mas é bem possível que eu não volte nunca.
Por exemplo. Quando eu não fazia mal a ninguém, quando procurava apenas aclimatar-me e obter um pouco de alimento, chamavam-me de monstro e queriam destruir-me. Hoje que involuntariamente, pelos resultados que só posso conhecer depois, sou um perigo antes, ninguém me teme nem me persegue: nem as mulheres nem os cães. Até conquistei muitos amigos. Duraram pouco, é verdade, porque me transformei neles, mas isso não quer dizer que me detestassem.
Sinto que há em minha natureza alguma coisa igual à dos homens, alguma coisa que os homens podem compreender e aceitar. Talvez esteja vendo pelo prisma errado: minha natureza é que aceita e compreende os homens. Talvez, também, as sucessivas personalidades que tenho absorvido prejudiquem o meu raciocínio. Nem sempre reajo com lógica (a dos homens, é claro). Às vezes, nos momentos de pessimismo — o pessimismo hereditário e mortífero dos ghrhianos —, perturbo-me com a ideia de que os homens ignoram minha existência, levo entre eles uma vida simulacrária. Não me tratam como Blixt-o-ghrhiano-amigo-e-inofensivo, como eu tanto gostaria (nós, os ghrhianos, temos a boa obsessão da personalidade), mas sim como a pessoa em que me tornei — alguém que eles julgam continua vivo como dantes. Isso me entristece, e nessas ocasiões (cada vez mais raras) penso em voltar a Ghrh.
Meu primeiro contato com a Terra foi através de uma árvore. Não foi difícil virar árvore porque, de certa forma, sou um ente vegetal. Ou, pelo menos, os entes vegetais da Terra são a coisa que, embora vagamente, mais se aproxima do que nós somos, em Ghrh. Vim bater aqui por simples acaso, diga-se de passagem — Ghrh é um lugar bastante bonito e possui alimento de sobra para que se queira sair de lá. Na própria época de minha partida, estava apaixonado (oh, as sutis, as imprevisíveis palavras terrestres!) por uma espécie de vegetação perto do Pântano de Souilh, e se não me sinto mais contente na Terra é porque de vez em quando me lembro de Souilh, tentando adivinhar, com amargura, quem terá tomado posse daquele pântano querido, talvez Havg, meu melhor amigo e companheiro. (Nunca tive muita certeza de que fosse sequer meu amigo, mas também nunca me deu oportunidade de devorá-lo.)
Ghrh é um planeta imenso, e nós, os ghrhianos, somos também seres imensos, praticamente não morremos. Aqui na Terra esse problema da morte tem sido para mim uma verdadeira dor de cabeça. Enquanto me transformava em árvore, podia ficar algum tempo tranquilo. Mas agora que me transformo em animais e seres humanos, fico às vezes em brutas entaladelas para não ser apanhado de surpresa. A princípio julguei que fosse eu quem matava as pessoas, mas depois comecei a observar melhor (virado num banco de praça, desses de madeira rústica — péssima ideia, aliás, porque foi uma luta para alimentar-me e não conseguia mexer-me um centímetro), comecei a observar melhor, dizia eu, e vi que os homens crescem e morrem numa fração de segundo. Isto é, para eles, não é uma fração de segundo; creem até que vivem muito tempo e muito devagar. Todavia, a noção do tempo entre os seres humanos é demasiado primária, a rigor não se pode dizer que tenham noção do tempo. Na cidadezinha onde fui banco de praça, vi um ser humano praticamente se erguer de dentro do carrinho em que era empurrado pela babá, crescer como um relâmpago, e logo passar estendido num ataúde, encolhido como um fruto seco. De que ideia do tempo será capaz uma criatura assim, tão efêmera? Tenho muita pena dos humanos. Poderiam fazer grandes coisas, se não se precipitassem para a morte com tanta sofreguidão.
Jamais compreendi muito bem por que me chamavam de monstro e por que tinham medo de mim, embora ao mesmo tempo quisessem ver-me. Queriam aniquilar-me e não queriam que eu desaparecesse. Certa vez bombardearam-me com objetos atômicos, que me deram uma grande sensação de bem-estar. Julguei que pretendiam alimentar-me e fiquei sinceramente impressionado com a inteligência humana: não só haviam adivinhado a minha natureza, como tinham percebido que eu estava faminto. Comera algumas árvores e sugara alguns pântanos, mas eram muito pobres daqueles elementos tão abundantes em Ghrh.
Parece que ficaram um pouco assustados com o meu tamanho e isso me serviu de consolo. Em Ghrh sempre fui tido por um indivíduo raquítico e todo o mundo se julgava no direito de devorar-me. Mas eu tinha minhas próprias ideias e não estava disposto a transferi-las para ninguém. Quando Havg insistia em acompanhar-me e proteger-me, eu conservava uma saudável distância. Não conhecesse eu os ghrhianos!
O que prejudica os meus irmãos de Ghrh é que são muito vorazes. Penso, inclusive, que eu seja um ser de transição, estou ficando mais denso. Tive essa certeza quando um asteroide passou perto de Ghrh e deixou cair uns objetos muito mais densos do que nós. Guardei um deles durante muitos dias (durante muitos séculos, como se diz aqui na Terra) e notei que não se alimentava e permanecia com o mesmo tamanho, o mesmo aspecto. Durante o tempo em que o observei, não saí do lugar nem comi nada. Ora, um ghrhiano é incapaz de passar um segundo imóvel e sem comer. Deduzi que eu era um ser em evolução e — ao contrário do que pensavam todos em Ghrh — talvez fosse eu o habitante mais velho do planeta. Já tinha comido bastante.
Esperei que passasse outro asteroide (eles são muito frequentes em nosso sistema) e embarquei. Descobri que no espaço havia correntes elementares, algumas com certo teor alimentício para um ghrhiano não muito exigente, e que com um pouco de paciência e de sorte eu poderia percorrer todo o Universo e saciar, talvez não minha fome, mas com certeza minha sede de conhecimentos. Verifiquei logo que estava errada a cosmogonia de Ghrh, segundo a qual o Universo era uma tira infinita coberta de pântanos, concepção essa vergonhosamente utilitária. O próprio planeta Ghrh é redondo, embora eles não desconfiem disso.
Descobri campos magnéticos, canais de vácuo, passagens infraespaciais, que permitiam viajar com relativa comodidade. Descobri também cruzamentos de antimatéria e mares de lama cósmica, de que escapei milagrosamente. Na penúltima galáxia que visitei, tive que distender minhas moléculas quase ao ponto de desintegração, para caber na estreitíssima franja entre a luz e a antiluz. Grande parte da viagem, porém, foi mais fácil.
Eis senão quando venho dar à Terra. No primeiro momento fiquei assombrado. Eram seres vivos, mas de uma tal densidade que eu simplesmente não conseguia atravessá-los. Quando me transformei em árvore pela primeira vez, tive de fazer um esforço quase impossível para andar alguns quilômetros. Ao abandoná-la, a árvore caiu com um pequeno estrondo, o que me intrigou. Tudo indicava que permaneceria de pé: tinha tantas raízes!
Foi também por acaso que descobri os fios elétricos. Toquei num deles e vi-me transportado a uma distância que o mais rápido ghrhiano não percorreria numa semana. A Terra toda está cheia desses fios, muito fininhos e brilhantes. Só agora sei que são fios elétricos; na ocasião pensei que se tratasse dos odiosos Fwps.
Oxalá pudesse eu dizer que somos os únicos habitantes de Ghrh! Desgraçadamente é bem outra a verdade. Uma boa parte do planeta (por sorte, as partes mais altas) é ocupada pelos execráveis Fwps, seres filiformes e pestilenciais, de uma densidade muito maior que a nossa. Depois de chegado à Terra, ocorreu-me a hipótese de que eles talvez tivessem raízes; mas quem sabe se não são apenas uma raiz? São fios imensos, ora mais grossos, ora mais finos, sempre mais achatados que redondos; em média não devem ter mais de dois metros de diâmetro. Os monstruosos Fwps — eles, sim, terrestres, é que são monstruosos! — atrapalham a vida dos ghrhianos. Se fossemos uma raça unida e não pensássemos tanto em comer-nos uns aos outros, já teríamos dado cabo desses vermes abjetos. Enfim, aqui fica o aviso para quem for a Ghrh.
Falemos agora de coisas bonitas. Falemos de 61 Cygni. Os cignianos são seres translúcidos e fulgurantes. Há poucos dias, quando me converti num astrônomo (foi uma experiência agradabilíssima, além da profunda emoção que senti quando pude identificar, brilhando lá longe como um vaga-lumezinho perdido, o meu enorme e querido Sol de Ghrh. Lancei depois o refletor na direção de 61 Cygni e, graças à visão especial que conservo, distingui nitidamente as pirâmides amigas. Meu colega de Observatório estava preocupado com certas manchas em Marte. Expliquei-lhe tudo detalhadamente e ele, gracejando, disse que até parecia que eu já tinha estado em Marte. “E estive de fato!”, redargui, traindo-me; mas ele pensou que era brincadeira e então rimo-nos a bom rir. É um velhote simpático e qualquer dia vou transformar-me nele para conhecê-lo melhor)… contava, se bem me lembro, que me transformara num astrônomo e falava de 61 Cygni.
Em 61 Cygni vivi uma das experiências mais fascinantes de minha vida. Tinha descido não sei como num planeta situado entre dois sóis e vi-me cercado de cristais gigantescos. “Você é um dos seres pretensamente imateriais do planeta Gúzri?”, perguntaram. “Não”, respondi, “sou de Ghrh. Um ser fluido, de densidade variável, mas não imaterial. Desci porque estou um pouco fraco ou porque vossa luz me ofuscou.” Aceitaram a explicação e ficamos amigos. Conheciam Ghrh, mas pensavam que ali não havia formas superiores de vida. “E que vida!”, exclamei, ainda com o pensamento voltado para o pântano de Souilh.
Cygni é o lugar mais belo do Universo. Mais belo do que Ghrh e do que a Terra. É habitado, como disse, por seres hialinos, rígidos, é verdade, mas capazes de tomar as formas mais caprichosas. Têm um temperamento artístico e passam séculos inteiros desenhando ou esculpindo, com seus cristais inteligentes, flores, rosáceas, catedrais, abstrações geométricas. Criam poliedros imensos, de milhares de faces. Costumam repousar em forma de icosaedro. São grandes filósofos, grandes matemáticos e grandes físicos. Não morrem, não se alimentam, não se guerreiam. É impossível descrever o espetáculo dos “pensamentos”: milhares e milhares de cristais, estendendo-se por milhares e milhares de quilômetros, unificados na beleza perfeita, emitindo luz por todos os lados — emitindo pensamentos, para formar um pensamento único! Só eles, é claro, podem fruir todo o esplendor dessa tríplice beleza, a do pensamento, da forma e da luz, com suas infinitas nuanças de tempo e espaço, mas é preciso dizer que possuem grande poder de comunicação. Podia vê-los do alto em seus movimentos solenes, enquanto um fluxo estranho se propagava pelo meu grosseiro organismo.
Quando querem esquadrinhar o Universo, juntam-se em pirâmides de milhares de metros de altura e foi assim que (simbolicamente) travaram batalha com seus implacáveis inimigos, os seres “imateriais” de Gúzri. Gúzri, explicaram-me, é um planeta pouco maior do que o de 61 Cygni e fica no centro de um sistema paragalático de 185.000 estrelas anãs. Durante muito tempo, os guzrianos se acreditaram senhores do Universo. Quando entraram em contato com os cignianos, ou melhor, quando estes entraram em contato com eles, ficaram sabendo que seu sistema multissolar era apenas um minúsculo grão de areia. Nem sequer estava no centro da galáxia, nem sequer sua galáxia estava no centro da supergaláxia. Essa batalha interestelar data de milhares de milênios. O maior sonho de um guzriano é destruir 61 Cygni com a energia de seu formigueiro de estrelas; o dos cignianos é conquistarem o “Grande Cristal”, que é a tradução da palavra Gúzri.
Além de soberbos, os guzrianos são de uma temeridade sem limites e planejam fundir num só os seus 185.000 sóis, como primeiro passo para a destruição de 61 Cygni (e da própria Alpha) e o domínio do Cosmo. Outro dia, estive examinando uma estrela catalogada como Épsilo do Cocheiro e fiquei temeroso de que o plano dos guzrianos esteja surtindo efeito. Pouco se lhes daria se a fusão redundasse numa catástrofe cósmica. Espero que os cignianos estejam atentos a essa loucura e encontrem meios de combatê-la.
Porém, a coisa mais impressionante nos cignianos é a maneira como transportam matéria viva. Captam mensagens mentais de seres de outros sistemas e, quando querem trazê-los para 61 Cygni, enviam um raio que transforma essa matéria em ultraluz, imediatamente recolhida pelas grandes pirâmides. Fazem isso para estudar melhor alguns espécimes longínquos, para socorrer criaturas perdidas nas galáxias (como foi o meu caso) ou para atender a desejos formulados em determinadas faixas de energia. Quando alguém pensa com suficiente intensidade, pode ficar certo de que um raio de luz está a caminho. Vem de lá, vem de 61 Cygni!
Outra experiência que não quero deixar de relatar foi o que me aconteceu numa das primeiras vezes em que me converti em ser humano. Hoje, quando me transformo em alguém, sei que ele “morre” logo e, exceto alguma coisa que desaparece e que não descobri ainda o que é, não há diferença visível entre mim e o “morto”. Mas no início eu ignorava tudo sobre a natureza dos terrícolas e a intuição não me ajudava. Confesso, pesaroso, que uma das mais estranhas epidemias que grassaram nos últimos tempos foi devida exclusivamente à minha inexperiência. Eu trocava de corpo quase de segundo em segundo e está visto que as pessoas morriam “de repente”. Custei a ajustar meu tempo interior ao tempo humano, e sem querer fui responsável por alguns casos de amnésia e de loucura súbita, para não falar em complicações ainda mais lamentáveis.
Mas a experiência de que falei foi a seguinte (vista de hoje). Entrei numa criatura que passeava num parque (eu estava no parque e nessa ocasião ainda era árvore). Logo se aproximou de mim outra criatura, que me levou para dentro de um veículo e me conduziu a um lugar estranho, onde se faziam, se comiam e se bebiam coisas estranhas. Eu, é claro, me sentia atordoado. Tudo era novidade para mim e, por cima, ainda não estava certo de que minhas transformações fossem perfeitas. Nem sequer sabia que naquele momento eu era uma mulher! Temia ser descoberto a qualquer momento, sobretudo porque eu estava muito comprimido naquele corpo que não me obedecia inteiramente. Tomava todas as precauções possíveis (sou bom observador) para não cair de novo naquela história de monstro etc. Por isso obedeci docilmente ao homem (soube depois que era um homem), bebi o que ele queria que eu bebesse, acompanhei-o sem resistência a um lugar ainda mais sombrio, cheio de objetos estranhos (os humanos têm a mania de cercar-se de mil e uma coisas inúteis, a começar pelas casas e pelas roupas: em Ghrh nossa veste é o Sol e nossa casa a água), deixei que ele me despisse e se entregasse comigo a uma espécie de luta que lhe parecia dar um prazer especial. Houve um momento em que pensei que ele ia me devorar: foi quando se ajoelhou e começou a sugar-me, talvez para me engolir. Sei que vocês são densos demais para esse tipo de alimentação. Mas na hora meu subconsciente reagiu (é exatamente assim que nos entredevoramos em Ghrh) e tive um leve frêmito de susto quando, em seguida, introduziu em mim um apêndice que se materializara sem eu ter percebido. Eu não sabia o que estava acontecendo. Por via das dúvidas e julgando que graças àquele apêndice as nossas moléculas estavam unidas, transferi-me momentaneamente para o corpo do homem. Antes que minha penetração se completasse, pude captar no pobre sujeito um sentimento de terror como nunca vi igual no Universo. Abandonei-o imediatamente, por piedade.
Saberia mais tarde que eu representara desastradamente uma cena de amor e que se tratava de um hábito muito difundido na Terra, o amor. No fundo, continuo um ghrhiano e custo a compreender certas peculiaridades terrestres. Ai de nós, em Ghrh, se tivéssemos de reproduzir-nos dessa maneira! Devoramos o primeiro que aparece, e é só.
Essa experiência e a das criancinhas foram-me bastante úteis mais tarde. Concluí que, convertendo-me em pessoas idosas e do sexo masculino, evitava uma série de situações incômodas. Sim, hoje fujo a léguas das tais criancinhas. Elas não pensam, não sentem, não sabem nada, têm pouco espaço físico para minhas moléculas e, o que é pior, a cada instante são obrigadas a engolir um infecto líquido branco — que me escorria pelos cantos da boca.
Não me perguntem o que sou agora e por que estou contando minha história. Nem pensem que nós, os ghrhianos, falamos pelos cotovelos. Somos, ao contrário, uma civilização predominantemente olfativa e gustativa, embora possamos emitir sons que os terrestres considerariam uma linguagem. Acho que nossas emissões olfativas são muito mais penetrantes e nossos padrões gustativos falam mais rápido à inteligência do que os padrões visuais. Falar e ouvir, aliás, são, para mim, conceitos inteiramente novos, a música me deixa perplexo (no Universo que percorri o homem é a única raça que fabrica esse tipo de sons), rir e dormir são ideias que mal consigo assimilar. Estou ganhando densidade aqui na Terra e é possível que um dia eu viva no meu próprio invólucro. Enquanto isso, vou aprendendo a não mexer no delicado metabolismo humano e já neste último corpo tenho conseguido manter intactas as funções mentais. Quando ajo “ele” acredita que está sonhando ou sentindo coisas, e quando eu fico quieto “ele” retoma sua vida normal. Anda muito feliz — e tem tido inesperado sucesso — com algumas ideias “loucas” que lhe botei na cabeça. Se morrer, será de sua própria morte.
Temos pelo menos uma coisa em comum: gosto também desse odor que me lembra vagamente o Pântano de Souilh. A tentação de devorá-la é grande. Um ghrhriano é sempre um ghrhiano…


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Pego da coletânea "As Noites Marcianas" (1969), autor: Fausto Cunha.

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